O tema da terceira crónica desta rubrica quinzenal Crónicas do Cantinho é uma crítica ao atual estado da informação na televisão portuguesa.
Ligar a televisão em Portugal transformou-se num exercício diário de masoquismo psicológico. Não importa se sintonizamos os blocos informativos dos canais generalistas (RTP, SIC, TVI) ou se saltamos pelos canais de informação contínua (SIC Notícias, RTP Notícias, CNN Portugal, Now e CMTV). O diagnóstico é uniforme: as notícias são rigorosamente as mesmas e repetem-se constantemente num guião que parece escrito pela mesma mão pessimista. A atualidade transformou-se num loop infinito de desgraças que deprime qualquer espetador. E bem dizia o saudoso jornalista Artur Albarran com a sua mítica e intemporal frase: "A tragédia, o horror, o drama". Essa máxima nunca fez tanto sentido no panorama mediático e social atual.
O alinhamento diário abre quase sempre com a crónica negra mais visceral. Destacam-se os homicídios brutais e a trágica rotina da violência doméstica: homens que não aceitam o fim da relação, assassinam as mulheres e suicidam-se de seguida. O desfile de crimes continua com relatos detalhados de assaltos violentos, atropelamentos com fuga, episódios crescentes de racismo e xenofobia, violações, chocantes casos de abusos sexuais contra menores (pedofilia). O horror atinge o pico com os casos de infanticídio que chocam o país, brutalmente dissecados nos ecrãs, como as trágicas mortes da Valentina, da pequena Jéssica e, mais recentemente, da menina Lara, morta pela madrasta em Valpaços.
Quando a violência humana abranda, entram em cena as catástrofes: incêndios devastadores, desastres de aviação e o flagelo dos acidentes rodoviários, sempre contabilizando mortos e feridos graves. No plano internacional, o cenário mantém-se cinzento, dominado pela destruição das guerras na Ucrânia e no Médio Oriente, com o Irão no centro das tensões. Para preencher o resto do tempo, a própria política portuguesa tornou-se uma autêntica telenovela de enredos e escândalos com atores políticos, somando-se à habitual futebolada alienante e a autêntica praga dos comentadores (tanto os políticos como os desportivos) que, em vez de debaterem com elevação, andam tudo à pancada em direto.
Mesmo quando procuramos o contexto regional, o padrão repete-se com as suas próprias crises. Na RTP Açores, a atualidade informativa perde-se muitas vezes em politiquices estéreis, dividindo o ecrã com a fuga da realidade proporcionada pelas habituais novelas que continuam a conquistar o público açoriano. A agenda informativa da região fica inevitavelmente presa à repetição exaustiva dos impactos do incêndio no Hospital Divino Espírito Santo (HDES) e às eternas trapalhadas na gestão da transportadora aérea SATA.
Neste campeonato do mórbido, a CMTV move-se como peixe na água, segurando a liderança das audiências entre os canais de informação. A receita do sucesso assenta na exploração exaustiva e em tempo real dos crimes e tragédias mediáticas do país. Rostos como o da jornalista Tânia Laranjo tornaram-se o símbolo máximo de um estilo que escava a dor dos familiares das vítimas em direto, transformando o luto alheio em espetáculo televisivo lucrativo. Contudo, o impacto desta abordagem vai muito além do mero voyeurismo: a CMTV transformou-se numa autêntica escola do crime. Ao servir este mau exemplo em horário nobre, a estação acaba por incentivar telespectadores com mentes menos preparadas ou psicologicamente instáveis. O ecrã funciona como um gatilho perverso, levando indivíduos a cometerem assassinatos e atrocidades apenas para conquistarem a fama imediata e o protagonismo garantido não só na CMTV, mas também replicado noutros canais, jornais e revistas.
Para piorar este cenário, este ecossistema do horror estende-se e ganha uma nova vida nas redes sociais. Na busca incessante por gostos e visualizações, os utilizadores partilham estes casos de forma desmedida, transformando o espaço público digital num tribunal medieval. O enxovalho público corre livremente nas caixas de comentários, onde o discurso de ódio e o linchamento virtual são alimentados a cada minuto. O crime e a tragédia já não geram apenas lucros na bolsa do ecrã; servem agora de combustível para alimentar a raiva e a toxicidade no mundo digital. O país assiste, impotente, a uma engrenagem que já não informa, apenas adoece, divide a sociedade e gera novos monstros.
No fim de contas, os telejornais deixam-nos profundamente depressivos.
E para terminar, como estamos na véspera da Noite de São João, não podia passar em branco esta crónica com uma nota, que esta tarde a não perder na TVI, o segundo jogo de Portugal no Mundial 2026 com o Uzbequistão, depois de uma estreia "amarga" ao empatar com a República do Congo.
FORÇA PORTUGAL!
ATÉ À PRÓXIMA!
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