Ligamos a televisão no horário nobre e a receita é idêntica na SIC e na TVI. Se o Vasco Santana vivesse hoje, diria que o ecrã nacional virou uma extensão da Polícia Judiciária misturada com cenas gratuitas de erotismo piroso. Mudamos de canal para fugir a um sequestro e caímos num quarto de motel. Telenovelas há muitas, seus palermas, mas a falta de imaginação é sempre a mesma!
A ficção portuguesa transformou-se num catálogo de histórias deprimentes, criminalidade barata, violência gratuita e cenas de "amor" plastificadas, tudo em nome de uma guerra cega pelas audiências. Já não basta a dose diária de desgraças reais que engolimos ao almoço e ao jantar nos Telejornais, a histeria policial em direto na CMTV e o alarmismo das omnipresentes crónicas criminais que saturam as manhãs. Quando chega a noite, o espectador precisava de uma lufada de ar fresco. Em vez disso, na ânsia de esmagar o rival no espetáculo dos números e das quotas de mercado, as estações oferecem uma maratona de sofrimento e angústia.
Hoje em dia, confesso que já não tenho estômago para me sentar no sofá a acompanhar este desfile diário de desgraças. Deixei de ver as produções nacionais atuais e basta-me uma vista de olhos rápida pelas páginas da revista Maria para ler os resumos e confirmar que nada mudou. Quem esfolheia as novidades das novelas em exibição percebe logo o ramerrame: em Páginas da Vida ou Vitória na SIC, e em Amor à Prova (que está na reta final e não tarda nada chega A Madrasta) ou Terra Forte na TVI, o menu é sempre igual. São acidentes de carro terríveis encenados apenas para eliminar ou pôr entre a vida e a morte as personagens, cativeiros em armazéns abandonados, agressões brutais e encontros íntimos criados para inflacionar as quotas de ecrã. Morre-se por tudo e por nada, e a catástrofe automóvel ou o rapto tornaram-se os recursos padrão para segurar o público quando o guião perde o rumo.
Para lá da repetição dos crimes e dos desastres, o impacto deste vício diário estende-se silenciosamente aos lares portugueses. Há quem diga, com uma ponta de verdade camuflada em desabafo, que as telenovelas também destroem casamentos, seja pelo isolamento de quem se recusa a largar o ecrã, seja pelas expectativas irreais criadas em rotinas de silêncio na hora do jantar. Mudar de canal tornou-se um exercício de ilusão ótica. O galã que chora a morte da namorada na SIC é o mesmo que, dez minutos depois, surge na TVI a planear um golpe financeiro. A atriz que faz de mãe sofredora em Queluz de Baixo é a vilã implacável em Paço de Arcos. Assistimos a um autêntico jogo das cadeiras musical de atores. Esta rotação perpétua de meia dúzia de rostos impede o espectador de se desligar do ator para acreditar na personagem. É a consanguinidade artística levada ao extremo, enquanto centenas de novos talentos formados no país continuam empurrados para o desemprego ou para o esquecimento.
Onde foi parar a verdadeira comédia? Quem resistiu ao fenómeno Festa é Festa na TVI, acompanhando a novela fielmente desde o primeiríssimo dia até ao derradeiro episódio de setembro de 2025, sabe bem a falta que faz o humor nos ecrãs. Foi aí, aliás, que bati o pé e fechei a minha conta com as novelas portuguesas modernas. Mas a própria gestão do canal mostrou o desdém pelo género à medida que as obsessões com as audiências mudavam: a saga da Aldeia da Bela Vida acabou empurrada e maltratada em horários cada vez mais tardios. É o mesmo fado que sofre atualmente A Protegida, despachada sem dó nem piedade para uma exibição residual aos sábados. Se o formato não vive da pancaria, do sangue e da sexualidade fácil, os programadores atiratando-o para a berma da grelha.
Por outro lado, quando olhamos para o canal público, o cenário muda de figura mas o resultado não melhora. A RTP deixou de apostar em telenovelas tradicionais de longo fôlego para investir em séries de ficção e telefilmes portugueses. No papel, a premissa parece louvável. Na prática, o resultado é uma montanha-russa: entregam-nos produções que variam entre o interessante e o profundamente desinteressante. O pior é que o esforço resulta num deserto de público. São formatos que quase ninguém vê, arrastando-se em tabelas de audiências residuais que ficam muito abaixo dos números alcançados pelas novelas dos canais privados. O espectador quer uma boa história contínua, mas a estação pública insiste em experiências que falham em agarrar o país.
Neste momento, a minha única e verdadeira salvação televisiva tem sido o refúgio na TV Globo Portugal, ligada apenas para assistir a uma obra-prima: a Rainha da Sucata. É lá que recordamos o que é construir um verdadeiro clássico da teledramaturgia brasileira sem precisar de recorrer ao histerismo gráfico para liderar as tabelas, depois de já ter deliciado o paladar com a genialidade satírica de Roque Santeiro e a riqueza regionalista de Tieta. Na grande obra de Sílvio de Abreu, a comédia equilibra-se perfeitamente com o drama, as relações humanas têm tempero e verdade sem caírem na vulgaridade das cenas de "amor" mecânicas, as vilãs são icónicas pela sua personalidade marcante (e não pelo número de homicídios ou despistes que provocam) e o enredo avança com uma inteligência que nos prende sem nos insultar.
Tratar o público português como parvo é acreditar que só o terror, a obsessão carnal, o pânico, as novelas turcas em catadupa e as mesmas caras de sempre seguram os números do prime-time. O país tem excelentes profissionais, mas falta coragem às direções de Paço de Arcos e de Queluz de Baixo para abandonar a morgue e a overdose de crime que já satura o jornalismo. Queremos o regresso do riso, da substância e da originalidade no horário nobre, sem termos de esperar pela madrugada ou pelo fim de semana. Afinal, acidentes violentos, histórias deprimentes e divórcios brancos há muitos, mas a paciência de quem sabe escolher o que vê tem limites.
ATÉ Á PRÓXIMA!
