Olá, bem-vindos à nova rubrica do blogue O Cantinho do André intitulada Crónicas do Cantinho, que quinzenalmente serão publicados diversos artigos de opinião com temas variados. Nesta primeira crónica é uma crítica sobre a aposta excessiva da TVI nos últimos anos em termos de reality shows desde o Big Brother à Casa dos Segredos.
O ecrã da televisão brilha na sala escura. Passam vinte minutos da meia-noite. No sofá, o cansaço do dia devia convidar ao sono, mas a luz azul insiste em prender os olhos. Na pantalha, duas pessoas discutem aos gritos por causa de um pacote de massa esquecido na despensa. Mudam as caras, mudam os nomes das mansões, mas o guião da nossa rotina televisiva nacional permanece inalterado há anos. A TVI transformou-se numa máquina do tempo avariada, presa num ciclo eterno de vigilância consentida onde já não há espaço para respirar.
O espectador português vive hoje num autêntico ano letivo de voyeurismo forçado, sem direito a férias ou a interrupções letivas. Esta obsessão pelo desgaste rápido não é um vício de agora. Já em 2004 e 2005, nos tempos da Quinta das Celebridades e da 1ª Companhia, a TVI mostrava que estava disposta a tudo pela audiência fácil. Fechavam-se figuras públicas em quintas rústicas para limpar currais ou em quartéis para bater marchar no lodo à força de gritos. Duas décadas depois, as galochas e os camuflados deram lugar a confessionários coloridos, mas o método de exaustão permanece intacto.
A grande diferença é que, antigamente, estes programas davam tréguas e, acima de tudo, tinham alma. Os reality shows perderam por completo a magia de outrora, soterrados por uma gritante falta de humor e de leveza. O onde andam a genuína ingenuidade e a comoção nacional que o Zé Maria despertou no primeiro Big Brother? Que fim levou a comédia espontânea de uma Cátia Palhinha e os seus míticos trocadilhos geográficos na Casa dos Segredos? Onde ficaram as personagens castiças que nos faziam rir à gargalhada, como as eternas picardias e a cumplicidade de Joana Diniz e Bernardina Brito? Onde se escondeu a autenticidade emotiva de uma Fanny Rodrigues, que sofria e vivia o jogo sem guiões predefinidos? Até os momentos mais polémicos do passado, como o histórico e impensável pontapé do Marco à Sónia no Big Brother 1, tinham o impacto do inédito e da eletricidade do real.
Hoje não há espaço para essa verdade nem para a diversão pura. Os concorrentes entram já formatados pelas agências, armados em estrategas de trazer por casa e obcecados por parcerias de Instagram. Tornaram-se personagens cinzentas, frias, friorentas de carisma e absolutamente previsíveis. Para piorar, a reciclagem de caras é tão descarada que os concorrentes parecem ser rigorosamente sempre os mesmos. Saltam de edição em edição, trocam de estúdio, mas o carrossel humano repete-se em regime de exclusividade. É o cansaço de ver as mesmas tramas com as mesmas figuras: de Catarina Miranda a Afonso Leitão, de João Ricardo a Marisa Susana, Liliana, Nufla, Sara, Ariana ou Diogo. O ecrã tornou-se num condomínio fechado para sobreviventes de reality shows profissionais, bloqueando qualquer oportunidade a novas dinâmicas espontâneas.
O ambiente degradou-se a um ponto em que o entretenimento deu lugar a uma cultura explícita de hostilidade. De hoje em dia, os concorrentes fazem abertamente bullying com os outros nos reality shows, transformando a convivência num massacre psicológico diário perante a passividade cúmplice das câmaras. A humilhação, a intimidação concertada e o isolamento dos alvos da semana passaram a ser validados como "estratégia de jogo". Para piorar, a estratégia estende-se ao longo de todo o dia para "encher chouriços" com os Diários e os Extras. O painel de comentadores sofre do mesmíssimo mal de repetição exaustiva, arrastando as mesmas figuras de estúdio em estúdio para não dizerem coisa com coisa. É ver as opiniões circulares de Gonçalo Quinaz, Zaza, Márcia Soares ou Diana Lopes a debater o nada e a esmiuçar o vazio absoluto, apenas para esticar o tempo de antena. O debate perdeu o espírito crítico e transformou-se numa tertúlia de frases feitas e favoritismos óbvios que cansam até o espectador mais paciente.
Para agravar este cenário, o cansaço é cronificado: a TVI transmite reality shows de forma totalmente ininterrupta desde a estreia do Big Brother 2023. Desde esse outono, o ecrã nunca mais descansou. Termina um formato de primavera, engata-se no jogo de pressões no formato de verão e salta-se imediatamente para as intrigas outonais do Secret Story, atualmente, está em exibição mais uma edição do Secret Story - Desafio Final. O ciclo recomeça sem que o público possa fazer o luto televisivo. Não há tempo para a saudade. Os concorrentes misturam-se na memória coletiva; as polémicas parecem saídas de um algoritmo cansado que dita quem deve chorar e quem deve atacar. É o ano inteiro nisto, num loop asfixiante que confunde entretenimento com preguiça criativa.
Até a própria "Rainha dos Reality Shows" já veio a público dar voz ao descontentamento geral. Em intervenções recentes, Teresa Guilherme não poupou nas duras críticas à atual estratégia da estação de Queluz de Baixo, alertando que esta emissão consecutiva de formatos "desgasta" o género e constitui um enorme erro de palmatória. A histórica apresentadora lamentou o rumo dos programas de hoje, apontando o dedo ao ambiente tóxico que se instalou nos ecrãs: agora "é só confronto e mais confronto", uma espécie de cópia para pior daquilo que outrora foi um género divertido, dinâmico e com espaço para a genuína surpresa. Quando a própria mentora do formato em Portugal avisa que a corda está prestes a quebrar, devia ser tempo de a direção parar para ouvir
A justificação da estação para esta dieta televisiva forçada é sempre a mesma: os números. As audiências continuam a dar razão ao vício. O canal celebra com orgulho os dados da Media Capital que colocam as galas de domingo no topo das tabelas, esmagando a concorrência com registos acima de um milhão de espectadores. É o paradoxo da nossa televisão: criticamos a falta de conteúdo, mas consumimos o formato até à exaustão. A liderança absoluta no share mensal tornou-se o escudo perfeito para camuflar a falta de audácia. Ganha-se a guerra dos números diários, mas perde-se a longo prazo na qualidade da grelha de programação.
Houve um tempo em que as noites de fim de semana na TVI eram sinónimo de talento, espetáculo e uma saudável reunião familiar. É impossível não sentir nostalgia de formatos que celebravam o mérito e o esforço. Onde andam as imitações musicais e as caracterizações surpreendentes de A Tua Cara Não Me É Estranha? Onde se escondeu a pureza e a emoção das vozes das crianças em Uma Canção Para Ti? Que fim levou o glamour, a postura e a superação técnica na pista de Dança com as Estrelas? Em vez do insulto gratuito ao pequeno-almoço, tínhamos arte; em vez de intrigas de vão de escada, tínhamos ensaios, evolução e dedicação. O regresso de qualquer um destes grandes e nobres palcos seria a lufada de ar fresco de que Queluz de Baixo precisa urgentemente para resgatar a sua própria dignidade
Ao abdicar da ficção arrojada, de grandes formatos de entretenimento ou de concursos que desafiem a inteligência, o canal arruma-se num nicho confortável, mas perigoso. O entretenimento tornou-se dependente do choque imediato e do mediatismo digital passageiro de doze horas nas redes sociais. Uma pausa faria bem à saúde mental do país e à imaginação dos programadores. Desligar as câmaras da casa mais vigiada de Portugal seria o primeiro passo para provar que a liderança da TVI se pode construir com base na criatividade, e não apenas no voyeurismo. Precisamos de respirar ar puro fora desse jardim artificial, rotineiro e estéril. Como diz o próprio juiz Hélder Fráguas no sucesso das tardes do canal, A Sentença: "Depois, não se queixe!"
ATÉ Á PRÓXIMA!
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