O tema da terceira crónica desta rubrica quinzenal Crónicas do Cantinho falo sobre os incêndios, a maior problemática da época mais quente do ano.
Estamos na época do verão e, com ela, regressa invariavelmente o tema mais chocante, cíclico e doloroso de Portugal: os incêndios florestais. Todos os anos, o país assiste impotente à destruição, mas a verdadeira tragédia estende-se muito além da natureza. Trata-se de um fenómeno cultural, mediático e político que parece preso num ciclo eterno de negligência e voyeurismo.
Nas televisões nacionais, os canais de notícias (com a CMTV em destaque) iniciam uma maratona de sensacionalismo. As imagens de florestas em chamas, carros carbonizados e casas destruídas são repetidas exaustivamente, em loops infinitos que servem mais para alimentar as audiências do que para informar o cidadão com serenidade. Por outro lado, a televisão pública, através da RTP, destaca-se ao fazer uma cobertura com cuidado, demonstrando responsabilidade editorial e rejeitando o espetáculo fácil do pânico.
O problema é que o bombardeamento visual contínuo dos canais sensacionalistas gera um efeito secundário extremamente perverso e perigoso. Pessoas menos preparadas e outros sacanas fascinados pelo fogo encontram nestas transmissões o estímulo que procuravam. Movidos por um instinto destrutivo, cometem crimes de fogo posto com o objetivo claro de provocar a destruição de habitações, viaturas e, levados por uma crueldade extrema, de ferir pessoas e animais. Sentem um orgulho doentio em ver a sua própria aldeia a arder e em testemunhar o sofrimento alheio, enquanto as pessoas perdem as suas casinhas e uma vida de esforço. Para além disso, estes indivíduos gostam de aparecer na televisão, encarando toda a tragédia como se fosse uma autêntica festa pirómana da aldeia e usando o ecrã como um palco para alimentar o seu ego à custa do terror.
A par do crime intencional, a ignorância e a teimosia humana continuam a ditar leis. De forma incompreensível, há quem continue a demonstrar uma total falta de civismo ao fazer fogueiras em dias proibidos, ao lançar foguetes em festividades ou ao atirar beatas de cigarro acesas para o chão. Estes atos irresponsáveis são suficientes para criar novos focos de incêndio e espalhar o caos pela floresta fora.
No meio deste inferno, os bombeiros (os nossos verdadeiros "soldados da paz") dão o corpo às balas. Ficam exaustos, levados ao limite do cansaço físico e psicológico, enquanto lutam dia e noite contra a fúria das chamas para salvar vidas e bens, muitas vezes com recursos limitados para a dimensão do desastre.
A memória coletiva de Portugal está profundamente marcada pelo ano de 2017. É impossível esquecer a tragédia de Pedrógão Grande em junho, e os devastadores fogos de outubro do mesmo ano, que ceifaram cruelmente a vida a mais de uma centena de pessoas, deixando o país em estado de choque e luto nacional. Na altura, e em sucessivas campanhas eleitorais, os sucessivos governos PS e PSD prometeram mundos e fundos nas chamadas Campanhas de Prevenção. No entanto, a realidade demonstra que o poder político continua a repetir os mesmos erros e nunca cumpriu o que prometeu.
A grande promessa de limpar as matas (uma medida urgente para criar faixas de proteção e salvar as populações) ficou atolada na burocracia e na falta de apoios reais. Sem florestas geridas e terrenos limpos, a prevenção falha ano após ano. Ironicamente, como dizia Luís de Camões num contexto bem diferente, "o amor é fogo que arde sem se ver e a ferida que dói". Mas nos fogos de Portugal, o fogo vê-se demasiado bem nos ecrãs da televisão, e a ferida que dói na alma das populações teima em não sarar devido à negligência do Estado.
ATÉ À PRÓXIMA!
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