As Crónicas do Cantinho estão de volta após um período de férias e o tema da crónica desta rubrica quinzenal abordamos a Inteligência Artificial e os impactos negativos.
A Inteligência Artificial (IA) está a transformar o mundo de forma veloz, mas o seu impacto negativo começou a desenhar uma crise de confiança global. Se, por um lado, a automação promete otimizar o quotidiano, por outro, a tecnologia de deepfakes e a clonagem de voz estão a ser amplamente capitalizadas por redes criminosas para fins de fraude económica e difamação.
A Inteligência Artificial (IA) está a transformar o mundo de forma veloz, mas o seu impacto negativo começou a desenhar uma crise de confiança global. Se, por um lado, a automação promete otimizar o quotidiano, por outro, a tecnologia de deepfakes e a clonagem de voz estão a ser amplamente capitalizadas por redes criminosas para fins de fraude económica e difamação.
Em Portugal, o ecossistema mediático e político já sente os efeitos colaterais destas ferramentas, que denigrem a imagem pública de figuras conhecidas e manipulam a perceção dos cidadãos.
As personalidades da televisão portuguesa tornaram-se alvos frequentes de esquemas financeiros falsos devido à sua elevada credibilidade junto do público como é o caso de apresentador Manuel Luís Goucha que foi vítima de vídeos falsos clonados por IA no TikTok, onde a sua voz e imagem simulavam o apelo a uma suposta causa solidária. Goucha teve de vir a público alertar energicamente os seus seguidores para não se deixarem enganar pela fraude. Luísa Castel-Branco viu a sua voz replicada por inteligência artificial para anúncios fraudulentos na internet. A comentadora confessou ter ficado em estado de choque com a perfeição da imitação utilizada no esquema e Fanny Rodrigues viu a sua imagem indevidamente associada a publicidades enganosas geradas para vender produtos de emagrecimento. Os burlões manipularam o seu aspeto físico para ludibriar consumidores incautos no Instagram.
A desinformação sofisticada atingiu também o debate democrático português. O líder do partido Chega, André Ventura, protagonizou o primeiro caso documentado no país em que a voz de um líder político foi gerada por IA para fins de desinformação económica. No vídeo manipulado, a voz sintética imitava perfeitamente a de Ventura para incentivar o investimento numa plataforma financeira fraudulenta. Além de burlas financeiras, o político é frequentemente alvo de sátiras e vídeos ficcionais simulados por redes neurais que desafiam os limites entre o humor e a mentira descarada nas redes sociais.
A nível global, os impactos estendem-se a crimes de extrema gravidade humanitária e financeira:
Nos casos de Pornografia de Vingança e Deepfakes Eróticos, a cara é verdadeira e o corpo é falso, as ferramentas de IA são usadas para despir digitalmente mulheres e criar conteúdos pornográficos falsos com rostos de celebridades, estudantes e cidadãos comuns, gerando traumas psicológicos severos e destruição reputacional intransigente. O uso da Inteligência Artificial para pornografia não consensual e desinformação assinala uma nova era de destruição de reputações, lembrando casos históricos de manipulação de imagem, como aconteceu em 2003, com a atriz Fernanda Serrano que viu a sua imagem manchada a um vídeo pornográfico gravado por uma sósia, mas agora à escala industrial.
Nos casos de fraude como Olá Pai, Olá Mãe, as redes de crime organizado utilizam agora amostras de voz reais retiradas das redes sociais para clonar o tom de voz de filhos. Através de chamadas telefónicas simuladas, os criminosos exigem transferências de dinheiro imediatas, elevando as burlas a um patamar de realismo assustador.
A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa futurista para se tornar uma arma ativa de engenharia social. À medida que as ferramentas de falsificação se tornam acessíveis a qualquer utilizador, a integridade da imagem individual e a segurança pública passam a depender urgentemente de legislação robusta, literacia digital e tecnologias de verificação capazes de separar o código humano da ilusão algorítmica.
ATÉ À PRÓXIMA!
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