Na rubrica Os Tesourinhos do Cantinho, recorda o extinto canal luso-espanhol que ficou na memória na televisão portuguesa por cabo que continha dupla identidade (familiar de dia como Viver e atrevida de noite como Íntimo com "bolinha vermelha").
O Canal Viver/Vivir (mais tarde renomeado apenas para Canal Viver) foi um dos canais mais marcantes e peculiares dos primórdios da televisão por cabo em Portugal. Emitido na posição 18 do serviço analógico da antiga TV Cabo (atual NOS), o canal ganhou um estatuto mítico na cultura pop portuguesa dos anos 90 e início dos anos 2000 devido à sua inesperada dupla identidade.
Fundado pelo jornalista espanhol Manuel Campo Vidal, o canal iniciou as suas transmissões oficiais a 01 de abril de 1998. Com escritórios em Madrid, Barcelona e Lisboa, o Viver/Vivir foi concebido originalmente como um canal de lifestyle ibérico e de cariz familiar.
Durante o dia, a sua programação focava-se em temas inofensivos e educativos tais como saúde, bem-estar, culinária, nutrição, bricolage, decoração, moda, artes, desporto e tempos livres.
A estação contava, inclusive, com rostos conhecidos do público português na sua fase inicial, como é o caso da atriz Ana Brito e Cunha se estreou como apresentadora, na altura em que fazia enorme sucesso com O Jardim da Celestre e na telenovela Os Lobos na RTP.
O famoso "Canal 18" O
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| Canal Íntimo |
O canal tornou-se verdadeiramente famoso em Portugal pelo que acontecia após o cair da noite, especialmente nos fins de semana e vésperas de feriado. Através de um sistema de partilha de frequência (time-sharing), a pacata programação familiar do Viver/Vivir dava lugar, a partir das 23h00 ou meia-noite, ao Canal Íntimo.
Este bloco noturno transmitia conteúdo erótico e pornográfico. Para a geração millennial portuguesa, o "Canal 18" tornou-se sinónimo deste universo pelas seguintes características:
Numa fase inicial da TV Cabo, o sinal não vinha totalmente descodificado ou bloqueado por boxes premium, ficando acessível de forma livre no pacote básico analógico.
Muitos telespectadores da época recordam-se de ajustar manualmente a sintonia fina das suas televisões (frequentemente usando pequenos truques de frequência) para contornar os riscos e interferências estáticas da imagem distorcida, conseguindo ver a emissão de forma quase nítida.
Os filmes de cariz adulto eram maioritariamente dobrados em espanhol, gerando frases e expressões como "¡Oh Sí, cariño!" que ficaram gravadas no imaginário humorístico e cultural de quem viveu essa época em Portugal.
A transmissão de conteúdos explicitamente adultos em sinal aberto (mesmo em horário de madrugada) gerou forte contestação social e política. Figuras políticas e quadrantes mais conservadores com particular destaque para intervenções na Assembleia da República lideradas por Paulo Portas (na altura líder do CDS-PP), insurgiram-se contra o modelo de difusão do canal.
A pressão resultou em alterações legislativas que forçaram a TV Cabo a codificar rigorosamente os conteúdos pornográficos. A partir daí em 2003, o acesso passou a exigir uma box com mensalidade ou canais premium dedicados, o que esvaziou a mística do acesso "livre" na posição 18.
Fim da emissão
Com a perda da sua componente erótica noturna e uma grelha diurna que não conseguia competir com os novos canais temáticos que surgiam no mercado, as audiências do Canal Viver colapsaram. Em meados de 2005, dados da Marktest indicavam que o canal tinha uma quota de mercado residual (cerca de 0,9% de share).
O contrato com a distribuidora não foi renovado e, a 30 de junho de 2006, o Canal Viver/Vivir foi oficialmente descontinuado e retirado da grelha da TV Cabo, sendo substituído por outros projetos (como o canal Infinito e o canal XXL, este último que deu lugar ao HOT). Terminava assim a história de uma das frequências mais comentadas e caricatas da televisão por cabo em Portugal.
Anos mais tarde entre 2024 e 2026, a operadora MEO lançou o 18, um canal de "vida dupla": A emissão diurna foi ocupada pelos conteúdos de moda, desfiles e alta-costura internacionais do canal Fashion Box TV e a partir de determinado horário noturno o canal transformava-se, passava a emitir conteúdo para adultos (filmes e produções eróticas de cariz premium), desta vez com restrições.
O "Canal 18" é recordado nos tempos de hoje, graças a exercícios de memória como os do famoso humorista e radialista Nuno Markl na sua rubrica Caderneta de Cromos da Rádio Comercial.
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