O humor é uma arma |» 'Crónicas do Cantinho'

O tema desta crónica da rubrica quinzenal Crónicas do Cantinho falamos sobre os limites do humor, a liberdade de expressão e a sua evolução em Portugal.

O debate em torno dos limites da comédia e da liberdade de expressão ganha novos contornos sempre que o riso colide com os dogmas da política, da religião ou da reputação pessoal. Internacionalmente, o cancelamento de espetáculos com a presença de Jerry Seinfeld, conhecido pela série Seinfeld, motivado pelo seu apoio público ao Estado de Israel, demonstra como a arena ideológica exige o alinhamento ou o silêncio dos criadores. Em Portugal, a tensão entre a liberdade criativa e as reações institucionais é uma constante histórica. Recentemente, o regresso do programa Ruído à RTP colocou Bruno Nogueira sob o escrutínio da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) devido ao polémico sketch "Corpo de Cristo", que satirizou a sagrada comunhão. Do mesmo modo, o litigioso processo judicial movido pela dupla musical Anjos contra a humorista Joana Marques (que exigia mais de um milhão de euros devido a um vídeo satírico sobre a interpretação do hino nacional, terminando com a absolvição da ré) prova que as fronteiras do riso continuam a ser testadas tanto nas instâncias reguladoras como nos tribunais.

Esta fricção com o sagrado e o poder não é uma novidade no panorama audiovisual português. As décadas de 1980 e 1990 ficaram profundamente marcadas pela audácia de Herman José, cujas criações testaram as barreiras do aceitável na televisão pública. Em 1988, o programa Humor de Perdição foi abruptamente suspenso pela administração da RTP devido ao segmento das "Entrevistas Históricas", onde figuras fundacionais da pátria eram retratadas de forma satírica. Anos mais tarde, em 1996, a rábula "A Última Ceia" incluída na rubrica Herman Zap gerou nova onda de indignação clerical e política, sendo rotulada pela Igreja Católica como uma "paródia grosseira" e motivando a abertura de inquéritos pela Provedoria de Justiça. Estes episódios fixaram Herman como o grande dinamitador de tabus morais e o principal mártir da liberdade de expressão no Portugal democrático.

A árvore genealógica da comédia nacional assenta, contudo, em raízes anteriores e ramificações diversas. Durante o Estado Novo, a resistência à asfixia da censura era feita com a subtileza inteligente dos Parodiantes de Lisboa e a genialidade comunicativa de Raul Solnado, que demonstrou que a ironia fina conseguia expor o absurdo da guerra sem fazer disparar os censores. Após a abertura democrática, o panorama televisivo diversificou-se: formatos como os Malucos do Riso massificaram o humor de anedota rápida e popular, enquanto o comentário político encontrou o seu apogeu no escrutínio corrosivo da Contra Informação, que humanizava e ridicularizava os decisores políticos através de bonecos de latéx.

A viragem do milénio trouxe estéticas renovadas. O surrealismo rural de Telerural brincou com os arquétipos do interior profundo, antecedendo a revolução cultural provocada pelo Gato Fedorento. Liderado por Ricardo Araújo Pereira, o coletivo elevou a análise do quotidiano, da linguagem e da idiossincrasia política a um patamar de sofisticação intelectual nunca antes visto no país. O humor expandiu-se também no formato documental e ficcional: Bruno Nogueira reinventou a linguagem da ficção televisiva ao subverter os códigos do reality show no inovador O Último a Sair, abrindo portas a exercícios de meta-humor contemporâneos como Pôr do Sol, que satirizou brilhantemente os clichés estruturais das telenovelas nacionais.

Atualmente, a nova geração divide-se entre o palco digital e o escrutínio mediático. Joana Marques converteu o comentário social diário no fenómeno Extremamente Desagradável, provando que a observação da cultura pop pode gerar grandes audiências e grandes batalhas legais. Na vertente mais extrema, Rui Sinel de Cordes assume-se como o bastião do humor negro de choque, desafiando convenções sociais de forma deliberada, ao passo que Diogo Batáguas consolidou o seu espaço através de monólogos de análise política e social independente distribuídos diretamente no ecossistema digital.

Longe do epicentro urbano do continente, o humor de pendor regional mantém uma vitalidade identitária assinalável. Nos Açores, a comédia soube apropriar-se dos traços culturais e linguísticos das ilhas para criar fenómenos de grande impacto local e comunitário. A figura da Tia Maria do Nordeste eternizou o imaginário da tradição micaelense, enquanto projetos como Fala Quem Sabe e o criador digital Helfimed transpuseram o sotaque, os hábitos e as vivências insulares para o universo contemporâneo da internet, sublinhando que o humor, além de arma de arremesso, é um forte elemento de coesão territorial.

Seja nos teatros internacionais condicionados pela geopolítica, nas denúncias à ERC por paródias litúrgicas ou nos tribunais que avaliam a sátira de figuras públicas, o percurso da comédia demonstra que as fronteiras do riso estão em constante mutação. O humor permanece como o derradeiro termómetro de uma sociedade livre: a sua saúde mede-se pela capacidade de tolerar o desconforto que a sua própria arma provoca.

ATÉ À PRÓXIMA!

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