Na rubrica Dossier OCA, falamos um dos casos mais mediático da história de Portugal, o triplo homicídio de Francisco Leitão, mais conhecido como "Rei Ghob, cujos os corpos nunca foram encontrados.
A história de Francisco Leitão, conhecido nacionalmente como o "Rei Ghob" (ou o rei dos gnomos), constitui um dos capítulos mais macabros, bizarros e complexos da criminologia em Portugal. Nascido a 28 de outubro de 1968, o antigo sucateiro e autoproclamado "bruxo" gerou uma onda de choque no país ao ser detido em 2010 e, posteriormente, condenado em 2012 à pena máxima de 25 anos de prisão por um triplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver.
O caso permanece envolto em mistério e fascínio mediático porque os corpos das três vítimas nunca foram encontrados e o processo assentou numa vasta teia de provas indiciárias, manipulação psicológica e registos de vídeo perturbadores.
O Cenário: O "Castelo dos Gnomos" na Carqueja
Francisco Leitão operava a partir da sua propriedade em Carqueja, concelho da Lourinhã. No local, o homem transformou a sua moradia e o terreno circundante numa espécie de castelo fortificado, repleto de estátuas, adereços esotéricos e símbolos dedicados a duendes, gnomos e forças ocultas.
Aproveitando-se desta fachada mística, o Rei Ghob apresentava-se como um guia espiritual e "bruxo". Atraía para o seu castelo vários jovens vulneráveis da região de Torres Vedras e Lourinhã, oferecendo-lhes falsas promessas de emprego, dinheiro e proteção, que mais tarde se convertiam num cenário de severa manipulação emocional e abusos sexuais.
Os Detalhes dos Crimes: Obsessão, Ciúmes e Desaparecimentos
A acusação do Ministério Público determinou que os três homicídios foram motivados por impulsos de posse, ciúme doentio e pela incapacidade do Rei Ghob em aceitar a rejeição romântica por parte dos jovens que orbitavam o seu castelo:
Tânia Ramos (16 anos): Desapareceu em 2008. Tânia namorava com Ivo Delgado, o jovem por quem Francisco Leitão nutria uma obsessão doentia. Movido pelo ciúme e por acreditar que Tânia "roubara" o namorado que ele considerava seu, o Rei Ghob decidiu eliminá-la. Na altura do crime, circulavam boatos na região de que a jovem estaria grávida.
Ivo Delgado (22 anos): Desapareceu pouco tempo depois de Tânia, em 2008. Após a morte da namorada, Ivo recusou reatar ou manter qualquer tipo de relacionamento íntimo com Francisco Leitão. Confrontado com a rejeição total do jovem, o Rei Ghob assassinou-o.
Joana Correia (16 anos): Desapareceu em 2010. Na altura, a nova grande obsessão de Francisco Leitão era Luís Pinheiro (filho de Carlos Pinheiro), que visitava o Castelo da Carqueja. Luís namorava com Joana Correia. Para afastar a rapariga e tentar forçar uma aproximação a Luís, o Rei Ghob engendrou o desaparecimento e a morte de Joana.
O Mistério dos Corpos Nunca Encontrados
Apesar das buscas policiais intensas e prolongadas levadas a cabo pela Polícia Judiciária logo após a detenção em julho de 2010 que envolveram escavações profundas na sucata, vistorias em poços e matas da Lourinhã, os cadáveres de Tânia, Ivo e Joana nunca foram localizados. Leitão remeteu-se ao silêncio em tribunal e guardou o segredo do paradeiro das vítimas. O Tribunal de Torres Vedras acabou por condená-lo com base numa sólida cadeia de indícios materiais, contradições nos depoimentos e rastreios tecnológicos.
Os Vídeos Inusitados e a Prova de Sexo
Um dos elementos mais bizarros e incriminatórios recolhidos durante as buscas ao Castelo da Carqueja foi o arquivo informático e audiovisual do arguido. O Rei Ghob tinha o hábito de gravar em vídeo as relações sexuais que mantinha com as suas vítimas e com os jovens que o visitavam.
Durante os exames periciais e psicológicos associados ao Instituto Nacional de Medicina Legal, as autoridades confrontaram Leitão com estas gravações. Embora em tribunal se tivesse mantido calado, o Rei Ghob acabou por confessar aos psicólogos e peritos que mantivera envolvimento romântico e sexual com os jovens, incluindo com Ivo Delgado e Tânia Ramos. As cassetes e ficheiros sexuais gravados serviram não só para provar a ligação íntima e a presença das vítimas na casa antes de desaparecerem, mas também para expor o seu modus operandi de chantagem e registo obsessivo.
Em paralelo, Francisco Leitão alimentava uma forte presença na internet da época através do YouTube com dois canais aqui e aqui. Gravava e publicava vídeos inusitados de cariz esotérico, onde surgia com vestes teatrais, capas e cajados, proferindo discursos teatrais e bizarros sobre o seu "reino" de gnomos, rituais de magia negra e profecias absurdas, material que o público e os media consumiram com incredulidade.
Julgamentos Posteriores e Estado Atual
O historial criminoso do Rei Ghob não se esgotou no triplo homicídio. Anos após a primeira condenação, Francisco Leitão voltou a sentar-se no banco dos réus. Em maio de 2017, enfrentou um novo e pesado julgamento, sendo acusado de mais de 500 crimes de violação e abuso sexual contra pelo menos 12 menores (com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos), além de crimes de pornografia infantil cometidos na sua rede da Carqueja.
O caso regressou às luzes da ribalta em meados de 2026 com a estreia do formato documental Portugal Criminal na SIC, que revisitou os meandros da investigação, as falhas iniciais e o perfil deste que é considerado um dos assassinos em série mais frios, cruéis e manipuladores da história recente de Portugal. Francisco Leitão continua a cumprir a sua pena máxima num estabelecimento prisional de alta segurança.
Brevemente na RTP1, o caso Rei Ghob vai retratado na ficção através da minissérie Psicopatas Portugueses, inspirada na obra de Joana Amaral Dias e tem como protagonista Elmano Sancho.





